COFEE

COFEE é o acrónimo de Computer Online Forensic Evidence Extractor, uma “thumb-drive” USB que a Microsoft disponibilizou discretamente a algumas agências de segurança em Junho passado. Trata-se de um pequeno aparelho que os investigadores podem utilizar e que descarrega rapidamente dados de computadores suspeitos de estarem relacionados com práticas criminosas.

O aparelho contém 150 comandos que conseguem reduzir substancialmente o tempo necessário para conseguir provas digitais, desencriptando passwords e analisando, não só a actividade do computador na Internet, como também os dados armazenados no disco rígido. Mais de dois mil agentes em 15 países, entre os quais a Polónia, as Filipinas, a Alemanha, a Nova Zelândia e, claro, os Estados Unidos, estão actualmente em posse do aparelho, que a Microsoft disponibiliza gratuitamente.

Brad Smith, advogado da Microsoft,  compara a Internet de hoje com as cidades como a Londres da Revolução Industrial, em que pessoas se deslocavam em rebanho das pequenas comunidades onde todos se conheciam para a grande cidade do anonimato, seguindo-se o crescimento do crime. Os aspectos sociais da Web 2.0, segundo Smith, são em tudo semelhantes a novas “cidades digitais”. Os editores, interessados na participação massiva para criação de publicidade, permitem a participação anónima, o que permite a infiltração de criminosos na comunidado, que fazem parte da conversação e persuadem as pessoas a fornecer dados e informação pessoal. As crianças são um dos grupos de maior risco, estando expostas aos predadores que utilizam identidades falsas.

Estas são, entre outras, as razões invocadas por Smith e a Microsoft para introduzir a utilização deste aparelho no dia a dia de todos os que utilizam computadores e a Internet. Compreendo a necessidade de uma melhoria dos métodos de investigação e aceito perfeitamente que os computadores necessitem de ser vasculhados, pelos motivos acima descritos. Existe, no entanto, uma diferença substancial entre cumprir a ordem de um tribunal e levarem-nos a máquina para uma investigação num local adequado, como as instalações da polícia que investiga, e a forma de aplicação desta aparelho, cuja descarga rápida permite que se obtenham os dados de forma massiva e em qualquer local.

À semelhança de todas as outras formas de vigilância, esta trata-se de mais uma que, pretendendo diminuir ou acabar com a criminalidade, sugere o perigo de cair nas mãos erradas. A tecnologia é clonável. Para além disso, não existem garantias que a utilização do aparelho seja feita transparentemente e apenas pelas forças da ordem. Não sei porquê [ou melhor: sei], mas vejo aqui uma excelente oportunidade para a espionagem industrial e intelectual, para as polícias políticas, para a devassa da vida privada, enfim, para a descarga de tudo quanto poderia estar seguro num disco rígido que me pertence.

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