Ainda em Torno do “Efeito Lusa” [II]

Porque considero relacionado, deixo link ao artigo do Alexandre, tradução do Recommending News, de Wilbert Baan.

Deste artigo retenho algo essencial, de entre toda a utopia da informação 2.0 que por lá é referida. Trata-se da visão funcional da informação, isto é, em que medida o receptor da informação é parte interveniente do processo, a partir de que momento é ele quem define o que é notícia, tendo como base as suas expectativas particulares e sociais.

Mas podem as notícias ser adaptadas a nós? Sabemos quais notícias são importantes para nós , certo? Confiamos nos nossos amigos? Pode a distribuição das notícias ser reduzida a um artigo (objecto) e ser sistematizada?

Creio que a resposta é dada, ainda no mesmo artigo, um pouco antes:

Quase toda a informação nos sites da web 2.0 é informação pública. Links no Del.icio.us, artistas e canções na Last.fm, notas pessoais no Twitter. O que acrescenta valor a toda esta informação são as colecções que reunimos à nossa volta. Nós somos o centro e os nossos amigos virtuais estão à nossa volta. Os serviços da web 2.0 assentam em grupos de pessoas em que confiamos, tendo em conta quem eles são ou o que fizeram.

Resta apenas saber o que infleuncia a escolha. Num mundo em que signos e símbolos se tornam realidade, a escolha é ditada sobretudo pelas indústrias culturais. A suposta liberdade de escolha que exercemos em democracia é nada mais que a escolha balizada por uma dinâmica à qual apenas visionários e artistas escapam. O conceito de normalidade é, em si, uma tendência que colide com a individualidade, sendo certo que a escolha da notícia ou do tema a ser tratado sofre o mesmo processo.

Assim, o que é escolhido como notícia de interesse, é aquilo que é suposto interessar ao grupo onde o indivíduo se insere e a escolha do artigo ou de uma qualquer informação é submetida à aprovação dos pares, antes de ser remetida para um âmbito mais alargado, como seja a internet. Na prática, poderemos dizer que, se eu escrevo este artigo, ele passa primeiramente pelo crivo do meu “grupo” e, sendo aprovado, será esse mesmo grupo a fazer dela algo mais abrangente, na multiplicação exponencial que a Internet providencia, com ou sem as anotações próprias dos divulgadores. Com sorte, algum “opinion maker” pegará no assunto e reverterá um link para aqui. Com menos sorte, o assunto será, sem link de retorno, ainda assim discutido. Sem sorte alguma provar-se-á que afinal de contas isto não interessou a ninguém, a não ser a um ou outro leitor mais interessado.

Afinal de contas, voltamos à dicotomia da redundância/entropia, à preservação da blogoesfera enquanto telenovela contínua, cheia de grandes planos e a dificultar a visão em perspectiva. É por isso que, compreendendo e aceitando a afirmação como realidade constatada, não posso, no entanto, concordar com Baan quando ele afirma:

As notícias raramente são apresentadas em torno de nós. São apresentadas de uma perspectiva em que o que é importante é definido pelos editores. Este é um sistema muito bom e fiável. Faz com que os sites e os jornais sejam diferentes e dá uma linha e personalidade às empresas de media.

Lamento mas o que observo é que as notícias que importam pouco têm a ver com os editores. São antes avaliadas por milhares, que decidem o que importa ou não, sendo o papel dos editores tão simplesmente o de colocarem a sua escolha á prova. Isto quer apenas dizer que existe um negócio de notícias, no qual apenas é importante aquilo que tem aceitação no mercado. O Paulo perguntava-me, aqui há uns dias, o que está entre o jornalista e o mercado. Ainda não sei, mas começo a crer que não existe nada.

2 Resposta(s)

  1. Eu não chamaria “nada” a uma indústria que ainda vale incontáveis biliões de dólares em todo o mundo, além de eleger primeiros ministros…

    Paulo Querido | Mai 2, 2008 | Responder

  2. Paulo: suponho que esse “nada” se refira à minha última frase. E, se sim, esta sai directamente do que foi escrito antes: a imprensa, tradicional e digital, tem que se alimentar. E a alimentação está cara…
    De resto, claro está que é ela a responsável por muita coisa, para o bem e para o mal.

    Conforme tens vindo a ler por aqui, eu sou um “defensor” de que a imprensa deve ser totalmente independente, quer das condicionantes económico-financeiras [uma utopia], quer da ditadura das audiências [outra utopia]. Mas não será tão utópico pensar que esta se deve livrar, de uma vez por todas, de compromissos exagerados com a internet e com a blogoesfera em especial. Uma coisa é auscultar a opinião pública e fazer um levantamento de tendências, outra completamente diferente, é fazer-lhe cedências.

    Nestas minhas utopias, cabe à imprensa uma coisa extremamente difícil: veicular a verdade. A blogoesfera não tem que ter esse compromisso. Quero com isto chegar ao ponto que me leva a este post: a qualidade da informação. Esta não pode, pelo lado da blogoesfera [quer dizer… poder, pode] limitar-se a uns quantos copy-paste só porque fulano disse… Pelo lado da imprensa, isso é ainda mais grave. Submeter uma redacção ao público não é, de todo, uma forma de fazer informação. Para isso temos o 24 Horas e as revistas cor-de-rosa…

    Abraço!

    Carlos José Teixeira | Mai 2, 2008 | Responder

Deixe Resposta: