Ainda em Torno do “Efeito Lusa” [II]
» Carlos José Teixeira em Mai 2, 2008 arquivado em informação
Porque considero relacionado, deixo link ao artigo do Alexandre, tradução do Recommending News, de Wilbert Baan.
Deste artigo retenho algo essencial, de entre toda a utopia da informação 2.0 que por lá é referida. Trata-se da visão funcional da informação, isto é, em que medida o receptor da informação é parte interveniente do processo, a partir de que momento é ele quem define o que é notícia, tendo como base as suas expectativas particulares e sociais.
Mas podem as notícias ser adaptadas a nós? Sabemos quais notícias são importantes para nós , certo? Confiamos nos nossos amigos? Pode a distribuição das notícias ser reduzida a um artigo (objecto) e ser sistematizada?
Creio que a resposta é dada, ainda no mesmo artigo, um pouco antes:
Quase toda a informação nos sites da web 2.0 é informação pública. Links no Del.icio.us, artistas e canções na Last.fm, notas pessoais no Twitter. O que acrescenta valor a toda esta informação são as colecções que reunimos à nossa volta. Nós somos o centro e os nossos amigos virtuais estão à nossa volta. Os serviços da web 2.0 assentam em grupos de pessoas em que confiamos, tendo em conta quem eles são ou o que fizeram.
Resta apenas saber o que infleuncia a escolha. Num mundo em que signos e símbolos se tornam realidade, a escolha é ditada sobretudo pelas indústrias culturais. A suposta liberdade de escolha que exercemos em democracia é nada mais que a escolha balizada por uma dinâmica à qual apenas visionários e artistas escapam. O conceito de normalidade é, em si, uma tendência que colide com a individualidade, sendo certo que a escolha da notícia ou do tema a ser tratado sofre o mesmo processo.
Assim, o que é escolhido como notícia de interesse, é aquilo que é suposto interessar ao grupo onde o indivíduo se insere e a escolha do artigo ou de uma qualquer informação é submetida à aprovação dos pares, antes de ser remetida para um âmbito mais alargado, como seja a internet. Na prática, poderemos dizer que, se eu escrevo este artigo, ele passa primeiramente pelo crivo do meu “grupo” e, sendo aprovado, será esse mesmo grupo a fazer dela algo mais abrangente, na multiplicação exponencial que a Internet providencia, com ou sem as anotações próprias dos divulgadores. Com sorte, algum “opinion maker” pegará no assunto e reverterá um link para aqui. Com menos sorte, o assunto será, sem link de retorno, ainda assim discutido. Sem sorte alguma provar-se-á que afinal de contas isto não interessou a ninguém, a não ser a um ou outro leitor mais interessado.
Afinal de contas, voltamos à dicotomia da redundância/entropia, à preservação da blogoesfera enquanto telenovela contínua, cheia de grandes planos e a dificultar a visão em perspectiva. É por isso que, compreendendo e aceitando a afirmação como realidade constatada, não posso, no entanto, concordar com Baan quando ele afirma:
As notícias raramente são apresentadas em torno de nós. São apresentadas de uma perspectiva em que o que é importante é definido pelos editores. Este é um sistema muito bom e fiável. Faz com que os sites e os jornais sejam diferentes e dá uma linha e personalidade às empresas de media.
Lamento mas o que observo é que as notícias que importam pouco têm a ver com os editores. São antes avaliadas por milhares, que decidem o que importa ou não, sendo o papel dos editores tão simplesmente o de colocarem a sua escolha á prova. Isto quer apenas dizer que existe um negócio de notícias, no qual apenas é importante aquilo que tem aceitação no mercado. O Paulo perguntava-me, aqui há uns dias, o que está entre o jornalista e o mercado. Ainda não sei, mas começo a crer que não existe nada.

Eu não chamaria “nada” a uma indústria que ainda vale incontáveis biliões de dólares em todo o mundo, além de eleger primeiros ministros…
Paulo Querido | Mai 2, 2008 | Responder
Paulo: suponho que esse “nada” se refira à minha última frase. E, se sim, esta sai directamente do que foi escrito antes: a imprensa, tradicional e digital, tem que se alimentar. E a alimentação está cara…
De resto, claro está que é ela a responsável por muita coisa, para o bem e para o mal.
Conforme tens vindo a ler por aqui, eu sou um “defensor” de que a imprensa deve ser totalmente independente, quer das condicionantes económico-financeiras [uma utopia], quer da ditadura das audiências [outra utopia]. Mas não será tão utópico pensar que esta se deve livrar, de uma vez por todas, de compromissos exagerados com a internet e com a blogoesfera em especial. Uma coisa é auscultar a opinião pública e fazer um levantamento de tendências, outra completamente diferente, é fazer-lhe cedências.
Nestas minhas utopias, cabe à imprensa uma coisa extremamente difícil: veicular a verdade. A blogoesfera não tem que ter esse compromisso. Quero com isto chegar ao ponto que me leva a este post: a qualidade da informação. Esta não pode, pelo lado da blogoesfera [quer dizer… poder, pode] limitar-se a uns quantos copy-paste só porque fulano disse… Pelo lado da imprensa, isso é ainda mais grave. Submeter uma redacção ao público não é, de todo, uma forma de fazer informação. Para isso temos o 24 Horas e as revistas cor-de-rosa…
Abraço!
Carlos José Teixeira | Mai 2, 2008 | Responder