Jornalismo | Manipulação de Imagem
» Carlos José Teixeira em Mai 13, 2008 arquivado em informação
O Garapa chegou-me ao conhecimento por mão do António Granado, em post de aqui há uns dias. Trata-se de um site brasileiro do género “Mediastorm” e a raiz do nome está documentada no post do António Granado. É uma vez mais por ele que chega a chamada de atenção para um artigo de denúncia de manipulação fotográfica publicado no Garapa.
O que por lá se refere é a história de uma fotografia de Cristiano Machado publicada na Folha de São Paulo e que, reproduzida na agência IstoÉ, sofreu alteração de conteúdo, tendo sido apagada uma inscrição. Em declaração publicada no site da IstoÉ, face aos protestos verificados, o editor executivo do site confirmou as alterações e pediu desculpas, explicando que a alteração produzida foi feita de moto próprio e sem outro objectivo que não fosse estético.
A manipulação da imagem no jornalismo é de suprema importância. Coisas simples como o enquadramento podem dar perspectivas completamente diferentes do facto relatado, a importância de um grande plano nunca foi tão grande. A imagem estática tem uma importância extrema, a significação que dela advém está intimamente relacionada com o conceito de “imagem do que era naquele preciso momento”. Não se pode, pois, por compromissos estéticos, apagar levianamente uma inscrição, uma árvore, uma pessoa que passa, sob pena de, por compromissos estéticos, a história vir sendo alterada ao sabor das preferências estéticas do momento, ou de solicitações de “estética política”, à semelhança da história fotografada do estalinismo e de outros regimes que, à esquerda e à direita a foram, também assim, reescrevendo.
Mas a inocência da imagem pode ser alterada com maior acuidade ainda, neste tempo televisivo, em que qualquer pestanejar tem um significado implícito. Talvez seja por isso que compreenda e concorde [!] com José Pacheco Pereira, citado por Luís Paixão Martins, quando ele escreve, no Público de 10 de Maio deste ano, referindo-se à entrevista de Manuela Ferreira Leite a Judite de Sousa, na RTP:
“Eu percebo muito bem a intenção do realizador. Não havia ruga, veia, movimento de olhar que não enchesse o écran, e o mais cruel dos planos escrutinava aquele rosto para lhe mostrar a fragilidade. É o mais violento dos olhares que a televisão é capaz, aquele que não permite que nada escape, que desapareça toda a reserva do corpo na sua parte mais exposta, a face. Aquele plano era todo um programa, tinha como objectivo mostrar uma mulher velha e cansada, com rugas, com o tempo na cara.”
Quem me conheça saberá que não estou aqui a defender Ferreira Leite. Também não tenho nada contra os grandes-planos, tenho antes contra o abuso na sua utilização e que se configuram numa espécie de manipulação [sim…] e que, ao fazê-lo, retiram ao espectador a possibilidade que a televisão oferece de escrutinar toda a complexa linguagem não verbal de entrevistadores e entrevistados, oferta essa que é a mais-valia de assistirmos a uma entrevista por esse meio. Isto é, antes de mais, uma manipulação pela negativa que, não só colide com a exigência de objectividade e igualdade de tratamento, como desrespeita a pessoa em si. E não adianta virem dizer-me que o realizador fará o mesmo com, por exemplo, a Ana Drago. Ao fazê-lo, estará a incorrer no mesmíssimo erro.

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