Educação | Adolescentes Dizem que “E-text” não é Escrita

Comunicação Escrita | Estudo: Adolescentes Dizem que

Um estudo levado a cabo pela Pew Internet & American Life Project e a National Comission on Writing, no qual foram entrevistados telefonicamente 700 adolescentes e analisados grupos em diversos pontos dos EUA, tem como conclusão que 60 por cento dos adolescentes não consideram as mensagens em chats, sms e afins como texto escrito. Apesar disso, 64 por cento dos adolescentes entre os 12 e os 17 anos de idade admitem incluir escrita informal da comunicação digital, como “emoticons”, acrónimos [LOL] e pontuação errada na sua escrita escolar. Apesar destas conclusões, 86 por cento dos entrevistados admitem que as habilidades de escrita podem ser determinantes do seu sucesso futuro, ideia que os pais acompanham, declarando por sua vez que as competências de escrita são agora muito mais importantes do que eram há vinte anos atrás. Para além disso, 93 por cento dos adolescentes admitem escrever para si próprios fora da escola. Amanda Lenhart, co-autora do relatório da Pew, conclui que “Existe claramente um grande fosso entre a escrita ‘real’ que praticam na escola e os textos que compõem para os seus amigos, na mente dos adolescentes.” Mais optimista, refere que “Sim, é também claro que a escrita ocupa um lugar central nas vidas dos adolescentes e na sua visão das competências necessárias para o futuro”. Mais alguns dados curiosos do relatório são o facto de 57 por cento dos entrevistados dizerem que revêem e editam o texto mais frequentemente quando utilizando um computador, e que 63 por cento declaram que a utilização do computador não tem reflexo na qualidade da sua escrita.

fonte: Stefanie Olsen, c|net News.com, 24 de Abril de 2008

Estas conclusões complementam, em grande medida, dois artigos por aqui publicados: “Do País Eduquês” e o recente “Escrita de Negócios: Tempo de Mudar“. Tanto num como no outro são consideradas a importância e as limitações que a eficaz aprendizagem e prática da comunicação escrita têm e podem originar.

O facto é que nunca foi tão fácil escrever e nunca foi tão comum ver os jovens a escrever. Torna-se necessário, no entanto, analisar o que escrevem eles e a forma como o escrevem. Uma rápida passagem em fóruns, chatrooms e sites de relacionamento permitir-nos-á verificar de imediato algumas coisas que, de certa forma, caracterizam a utilização da escrita pelos adolescentes.

A escrita adoptada nestes locais prende-se sobretudo com a garantia de feedback. Os assuntos abordados são, na sua maioria, superficiais e mundanos, sendo que, após a primeira intervenção, a que serve de gatilho à conversa, a conversação se reduz á substituição da linguagem falada e da linguagem não-verbal por expressões curtas, acrónimos e emoticons, que em regra geral nada acrescentam à proposta inicial. Nos casos em que o primeiro texto escrito adquire mais profundidade, a discussão inicial sobre o texto é também mais profunda. No entanto, acaba por se transformar, também aí, numa sucessão de interjeições, apenas garantia de feedback.

E isso é, a meu ver, o mais interessante. Este tipo de escrita não me parece ter como objectivo principal a troca de informação. Creio que a função principal desta escrita é apenas a garantia de “estar presente no grupo”, seja a que custo for.

Nunca a necessidade de pertença foi tão grande como na actualidade. As transformações sociais verificadas nos últimos anos têm sofrido uma evolução exponencial, a transformação dos valores, a ausência de ideiais fracturantes, o consumismo exacerbado, enfim, o galope dos dias que correm num limbo que os jovens vêem - com toda a razão - como um cizentismo que os levará a lado algum, provocam a necessidade e a urgência da pertença a uma tribo que partilhe as características comuns entre os membros. A novidade deste processo reside apenas no facto de os grupos serem agora uma entidade etérea e nem sequer exigirem a presença física do indivíduo.

As consequências de toda esta situação, somadas ao mais completo alheamento por parte dos que deveriam monitorizar, analisar e intervir no processo - pais, escolas, entidades culturais, governo - são ainda difíceis de avaliar em termos de futuro. Mas o presente oferece-nos já uma visão do que acontece, emoldurada pelo entusiasmo exagerado dessas mesmas entidades que parecem colocar todas as oportunidades no quadrado desenhado no monitor e na rede global, oferecendo computadores e internet a pessoas que adquirem habilitações escolares em “segundas oportunidades” que mais não são que uma falsa esperança colocada entre mãos e que funciona apenas até terem que demonstrar os conhecimentos adquiridos e em que medida servem estes para o exercício de uma actividade.

Esta “espécie de milagre” que são as novas tecnologias de informação e comunicação parece ser, actualmente, a panaceia para todas as dores. Mas não o é. O facto é que há-de sempre existir a necessidade de fazer as coisas manualmente, o facto é que não se constroem prédios na Internet, pelo menos fisicamente habitáveis. O facto é que há-de existir sempre quem necessite de moldar o barro. Como diria um general acerca dos bombardeamentos cirúrgicos e outras espécies de barbáries, “mesmo assim, nenhuma guerra está ganha até que a bota de um soldado pise o terreno ocupado”. Creio, seguindo esta linha de raciocínio, que as escolas devem começar por formar tropas de infantaria antes de se dedicarem a manobras volantes e de balística hi-tech.

Quem tenha a minha idade lembrar-se-á facilmente dos cadernos com pauta dupla - os cadernos de “duas linhas” - para o exercício da caligrafia. Lamentavelmente, esses cadernos foram considerados como uma espécie de espartilho à liberdade da criança. Cá por mim, olhando para o que se escreve hoje em dia, sinto cada vez mais falta deles. A utilização desses cadernos estava na origem de uma coisa fundamental: a inteligibilidade da escrita, tanto na vertente da correcção do conteúdo - através da prática de cópias e ditados de textos -, como na vertente gráfica. Lamentavelmente, hoje leio textos nos quais consigo encontrar erros das mais variadas espécies e feitios, se conseguir perceber a letra.

Vem isto a propósito da necessidade de se valorizar a escrita como um propósito em si, como uma actividade por si. Digamos que, se temos necessidade de constituir um grupo de discussão na Internet para uma turma de crianças, adolescentes ou universitários, que o devemos fazer seguindo determinadas regras que potenciem a escrita: fazer blogues em vez de fóruns ou chatrooms, determinar um número mínimo de palavras para cada artigo publicado, monitorizar e moderar a discussão, através da inserção de comentários correctivos de inexactidões ou erros, não deixando as coisas “ao deus-dará”. Organizar sessões de leitura e prática da escrita criativa e/ou informativa como forma de aprendizagem prática das regras gramaticais, em vez de colocar os alunos em sessões de “marranço” com canhanhos de gramática e prontuários intermináveis. Fazer das crianças veículos privilegiados da literatura, originar a discussão de textos entre elas e a subsequente crítica ou exposição escrita, por palavras, desenho, etc. Envolver os pais no assunto, solicitando-lhes uma avaliação crítica do trabalho da criança, potenciando assim a discussão dos assuntos no seio familiar.

São ideias, idiotices, talvez. Mas, como prova o relatório, para qualquer dos efeitos, a escrita ocupa um lugar central na vida dos adolescentes. Isso, somado à facilidade que a tecnologia permite, é o maior ponto de partida para o correcto redireccionamento dessa vontade para uma produção escrita de qualidade.

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  1. Mai 23, 2008: » domelhor.net

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